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O importante não é chegar … é ir! (A Saga do Caminho 9)
A primeira cidade do dia: Nájera, que nos séculos X e XI foi capital de La Rioja, após a destruição de Pamplona pelos mulçumanos. A entrada para a cidade não é nada bonita, mas o contraste ao atravesar a ponte que dá acesso a sua parte histórica é tremendo! Nesta antiga capital está um dos principais tesouros românico-gótico da España.

Dizem que o rei D. García Sánchez III caçava, quando sua presa entrou numa caverna. O rei foi atrás da presa, e descobri uma imagen de uma virgem, e ao seu lado um vaso com açucenas, um sino e uma vela. Depois de alguns anos, este rei conseguiu expulsar destas terras os muçulmanos, e para homenagear à virgem que segundo ele lhe acompanhou nas batallas, mandou construir o Monasterio de Santa María de la Real. E também instituiu uma das ordens mais antigas da España: Orden Militar de los caballeros de la Terraza o de la Jarra.

O monasterio é impressionante e cobra $ 2,00€ pela entrada. A igreja foi construída no lugar aonde estava a caverna da virgem.Na saída de Nájera passamos por um lindo bosque e alcançamos Azofra, aonde é muito mais barato comer do que em Nájera, e ademais melhor do que esperar a Cirueña, uma cidade com poucos serviços e atendimento “sofrível”. Em ambas se pode conseguir água nas fontes do caminho.
O mais lindo do dia estava por surgir … realmente Santo Domingo de la Calzada é um lugar mágico! Em que outro lugar se vê na catedral um galo e uma galinha? Sim senhores, VIVOS!!! E por quê isso?

Conta a história que um casal de peregrinos alemães chegou à cidade com seu filho de 18 anos. Eles se hospedaram na pousada de Santo Domingo, e uma empregada da pousada se apaixonou pelo jovem Hugonell. O jovem não quis saber da moça, e esta de vingança colocou um vaso de prata na sua mala, e denunciou seu roubo.
Nesta época o crime de furto era condenado a pena de morte, e o jovem foi condenado à forca. Os pais resignados seguiram sua peregrinação. Nesta época, além de ir caminhando, não havia outra maneira de voltar, que não fosse caminhando, asim em seu retorno os pais pararam em Santo Domingo para ver o corpo de seu filho. Para sua surpresa, o jovem seguia vivo. Santo Domingo lhe sujeitava pelos pés. Os pais rapidamente foram ao Corregedor contar o sucedido, o Corregedor sem acreditar em nada que lhe diziam, proferiu as seguintes palabras: “Seu filho segue tão vivo como a galinha e o galo que vou começar a comer”. Neste momento, o galo e a galinha começaram a cantar e saíram do prato. E desde então se diz na cidade: SANTO DOMINGO DE LA CALZADA / DONDE CANTO LA GALLINA DESPUÉS DE ASADA.
Desde então para lembrar o milagre, um casal de galo e galinha são mantidos dentro da Catedral. (Foto acima, na verdade foto horrível!!!). O casal é trocado a cada mês, mas permanecem pelo período de 1 ano dentro da Cofradía de Santo Domingo. E também um pedaço da forca do jovem Hugonell pode ser observado dentro da Catedral. Fora a linda lenda, milagre, como você queira chamá-lo, esta cidade é muito acolhedora. O peregrino é bem recebido e se respira o caminho por todas as suas ruas.
Para variar chegamos tarde, mas nos receberam na Cofradía de Santo Domingo de la Calzada, e dormimos em colchões no chão. Na verdade, sabe que é melhor dormir em colchões no chão, do que nos beliches ?! Se você dorme embaixo e a pessoa se move na parte de cima, você desperta. Se dorme em cima, qualquer coisa necessita descer e muitas vezes estes beliches não têm aquela escadinha para ajudar. Dormir no chão significa espaço, e não ter ninguém em cima de você!!! Isto me lembra uma frase española: “Solo no se consuela, quien no quiere” (hahahahahaha).

Era festa em Santo Domingo, estavam distribuindo uns chorizos incríveis e vinho. E a parte mais triste do dia, era a despedida de uns amigos. Muita gente que vive na península faz o caminho por partes, ou seja, neste ano, de Roncesvalles a Santo Domingo; no outro até León, e assim por diante até chegar em Santiago. O fascinante do caminho é esta flexibilidade, porque como dizia Chaplin: “O importante não é chegar, é ir”. Nesta viagem, entendi como nunca estas palavras…
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Imagens: turomaquia_2006
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A saída de Logroño é genial! A travessia é por um parque enorme, e a salvação é um bar em frente a um lago depois dos primeiros cinco quilômetros! Este dia decidimos que seria nosso descanso. O que não significava que íriamos ficar parados, o que é muito ruim para quem caminha tantos quilômetros. Nosso descanso era uma caminhada leve de cerca de 18 quilômetros.

Mais ou menos quando estávamos no meio da caminhada, demos de cara com o símbolo español – o touro. Que em verdade é o símbolo de uma marca de vinhos – Osborne, que já nem pertence mais a Familia Osborne española. Mas falou em Espanha, as pessoas lembram do vermelho e amarelo; do flamenco e do touro. Na verdade esta é apenas uma Espanha, como também: samba, futebol e carnaval, é apenas um Brasil!
Nesta parada para fazer as típicas fotos … Aproveitando, ninguém tem que ter vergonha de parecer turista! Hoje as pessoas tentam esconder este status, querem ser desbravadoras, e seria uma heresia fotografar tudo. As fotografias são ativadoras da memória. Quem de vez em quando não precisa destas imagens para voltar a sentir o sabor daquela comida ou daquele beijo …
Voltando, nesta parada, conhecemos a um britânico que levava duas “alforjas” (estas “mochilas” para bicicletas) e que estava voltando de Santiago. Sim! Ele estava voltando, já havia realizado todo o caminho, e agora ia em bici até Barcelona pegar seu avião para casa. O homem levava até uma mini-cozinha porque dizia que comer sempre fora não fazia bem para seu estômago, e tinha até uns cantos de Santiago. Parece meio louco,? Mas não era!!! Hay que respeitar, eu gosto de tirar fotos, e o homem gosta de cozinhar nas férias … por uma vida sem preconceitos!

Quando chegamos a Ventosa era como uma dádiva. Eu estava super bem, haviam sido poucos quilômetros e a cidade era bem pequena: rua da direita, rua da esquerda, rua do centro e rua da igreja, estes eram os nomes das quatro ruas principais … Mas sabe aquele ditado: pequenos frascos, grandes perfumes, acertou em cheio! Que surpresa!

O albergue era absolutamente perfeito, e era privado. O dono conhecia o Brasil, seu filho vive em Itaparica, e ele tinha mandado fazer a típica pulseira do Senhor do Bonfim, mas com o escrito: Camino de Santiago – Ventosa! E a super surpresa do dia, um restaurante incrível: Mesón San Antón, maior ambientaço, e comida de chef! Não existe coisa melhor que comer bem! E neste dia, a primeira brasileira do caminho: Marli, e de onde era? De Ponta Grossa, esta mãe coragem estava fazendo o caminho sozinha e desde Roncesvalles!
Neste dia tivemos que dormir no chão, o que não estragou para nada o dia genial que passamos. Eram pessoas especiais em um lugar abençoado por Deus e bonito por natureza …

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Acordamos cedo, já não via a hora de sair da pocilga. Foi uma noite tremenda …

Neste dia fizemos 32 Km, de Los Arcos à capital da Comunidade Autônoma de La Rioja – Logroño. Passamos por Torres del Río, e entramos em Viana. Esta cidade foi fundada no século XIII, e possui muitas construções históricas. Uma delas é esta Igreja – Santa María, com portadas côncavas e repletas de relevos. Nesta igreja está enterrado o filho do Papa Alejandro VI – César.
Os Borgia eram de Valencia e foram grandes personagens históricos (e um tanto quanto depravados!). Esta para estrear por aqui um filme que vai contar um pouco da história dos Borgia.

De Viana a caminho de um outro estado español. As comunidades autônomas são mais ou menos como nossos estados. Chegamos a Logroño e claro que já não havia lugar no albergue, mas tchan, tchan, tchannnnnnnnn, tinhamos uma reserva na Residência Universitária. Acontece que a residência estava a 1,5 Km da entrada da cidade. Este último kilômetro foi difícil, e cheguei me arrastando.

Gostei muito de Logroño, apesar de meu estado catastrófico (hehehehehe). A cidade tem 135.000 habitantes. Já foi palco de muitas batalhas em todos os sentidos, por exemplo em 1572 tornou-se a sede do Tribunal da Santa Inquisição. Aonde em 1610, quarenta mulheres que viviam perto das cavernas de Zugarramundi foram julgadas e doze foram condenadas à fogueira por bruxaria. Atualmente, realizam-se festas nestas cavernas, relembrando estas mulheres que provavelmente apenas se reuniam para comer e dar boas risadas, mas que foram condenadas por práticas demoníacas.
Este é apenas um dos vários episódios desta capital da terra do vinho. La Rioja é sinônimo de bom vinho espanhol. Quando se entra nesta comunidade, as videiras ganham protagonismo. Por todos os lados, e o caminho de Santiago passa por dentro de diversas fazendas vinícolas. É uma paisagem única e deliciosa! E é melhor aproveitar cada minuto, porque em breve sairemos de La Rioja e entraremos na enorme Castilla-León.
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