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Em homenagem a Gustavo: cancun, cancun … (A Saga do Caminho 19)
León – Puente y Hospital de Órbigo: 36,73 Km
O dia começou frio por aquelas paragens. Mesmo em agosto, eu já avisei: faz frio pela manhã em Castilla y León. E o frio dá pé a certo mau-humor e a pensar: “Senhor, Deus do Amor, que estou fazendo aqui nas minhas sagradas FÉRIAS!”
Não tema tais pensamentos, em algum momento você também os terá, não será pecado. Isto apenas significa que és humano! Pela minha cara na foto abaixo na saída de León, se percebe que o mar não estava para peixe, e mesmo assim veja o contraste no sorriso aberto do Tom. Estas fotos foram tiradas na frente do Parador de Turismo de León. Os paradores são lugares históricos, como antigos palácios, mansões ou de absoluta beleza natural, que o governo espanhol converteu em hotéis com charme e requinte. E os pensamentos abundam: “Senhor, por que eu não estou em uma viagem entre paradores!?”

Neste trecho tivemos que rir de histórias absurdas e até fazer música para que o tempo passasse, mas foi bem divertido. E quando estávamos chegando em San Martín del Camino com seu albergue e ao fundo o depósito de água tipo OVNI, esta paisagem bizarra virou o mote que o Tom precisava para a história dos et´s e que íamos ser abduzidos. Portanto, se vier acompanhado, deixa teu namorado mal-humorado ou teu primo “cara fechada” para ir a Disney, talvez passar tantas horas com eles não seja suportável. Ou quem sabe, você queira se candidatar ao Prêmio Nobel do Aguenta Chato, sei lá, cada um é cada um. Um amigo, chamado Gustavo, para encurtar esta história de que cada pessoa é um universo nos dizia: “Cancun, cancun” jejejejejeje

Faltava a seção de história, então vamos lá. Quando você chega a Ponte que une Puente a Hospital de Órbigo, descobre que o rio que passa por ela, é o Rio Órbigo. E que você está cruzando um espaço pelo qual já passaram as legiões romanas, os exércitos godos e até as tropas francesas e inglesas durante a Guerra da Independência.

O caminho é assim, quando menos se espera, estamos novamente dividindo espaço com cavaleiros, romanos e com outros peregrinos …
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Imagens: turomaquia_2006
Tempo de Turismo! (A Saga do Caminho 18)
Mansilla de las Mulas – León: 19,49 Km
Uiuiuiui … esta jornada foi bem fácil, nem chegamos aos vinte quilômetros. Mas por um motivo bem justo, alcançamos León, e esta cidade é tão bonita que não se pode apenas passar os olhos! A caminhada foi bem leve, e de dificuldade baixa. Saímos cedo porque queríamos fazer um pouco de turismo, tirar fotos na praça e sobretudo, conseguir um lugar no albergue do centro histórico da cidade. A chegada a León é bem mais agradável que a de Burgos, mas como é uma cidade relativamente grande para os parâmetros espanhóis, é meio confusa e uma boa parte se realiza em paralelo à estrada principal.
Primeiro objetivo alcançado, conseguimos lugar no albergue das Irmãs “Carbajalas”, uma albergue mantido por freiras. E com uma curiosidade, antigamente as irmãs separavam os homens e as mulheres, elas seguem com este costume, só que agora também oferecem um grande quarto de casais, sim senhor! Tudo evolui! As irmãs são super carinhosas e muitos voluntários ajudam a manter o lugar bastante organizado e limpo.
Neste ambiente tão puro tive uma idéia brilhante: doar meus tênis. O Tom estava carregando estes pesos mortos por mais de cem quilômetros, e só de pensar em calzá-los novamente, já me dava vontade de chorar. Já não havia volta atrás, não usaria mais este par de tênis. Liberando-se de meu espírito materialista absurdo, doei meus tênis caríssimos e quase novos para outra pessoa que pudesse fazer melhor uso deles. As irmãs mantém um espaço para guardar doações que são feitas para peregrinos menos afortunados que já chegaram a este albergue praticamente com os pés no chão ou morrendo de frio. Assim, se você carregou até aqui algo que até agora não usou, faz um favor para você mesmo e para o mundo: DOA!
Depois de deixar as coisas no nosso quarto de “parejas”, passamos ao exercício do tempo de ócio, e a primeira parada não podia ser outra, a Catedral de León. Por fora é bonita, mas por dentro é impressionante. Uma catedral de luz – uma catedral repleta de vitrais.

Antes da catedral existiu neste espaço, umas termas romanas e depois um palácio, então se construiu a primeira catedral em estilo românico, e em 1205 iniciou-se a construção deste edifício gótico imponente. E já em 1274, a catedral estava aberta ao culto.
São cerca de mil e oitocentos metros quadrados de vitrais. Uma grande amiga e companheira do caminho quando entrou nesta igreja não aguentou a emoção e começou a chorar. É uma das mais belas igrejas que eu já entrei, uma mistura da Catedral de Colônia com a Saint-Chapelle parisiense. E você entra e fica pensando, como eles fizeram tudo isto, com esta altura, com estes vitaris no século XIII ? Entre em várias horas do dia, não paga nada para entrar na igreja.


Mas esta não era a única surpresa do dia, depois de um almoço dos deuses, porque se come de maravilha em León. Se você não ficar no albergue das irmãs já que fecha cedo, e resolver ficar no albergue munciipal que não fecha pela noite, poderá “tapear” (petiscar) a noite toda no Bairro “Húmedo”. Aliás o albergue municipal é muito bom, mas fica afastado do centro histórico.
Bem, voltando a segunda surpresa do dia: Panteão Real, que é considerado a Capela Sistina do Românico. A coisa é a seguinte, dentro do conjunto da Basílica de San Isidro, você encontra uma igreja e na esquina esquerda (olhando para a entrada da igreja) um pouco escondido o acesso ao Panteão Real, que era o lugar aonde se enterravam os reis leoneses. Leão foi capital do Reino Astur-leonés. De forma milagrosa, apesar da invasões napoleônicas, este salão foi conservado intacto. Todo o teto aonde estavam as tumbas dos reis, infantes e infantas é pintado! (Os infantes são os filhos dos reis que por não serem primogênitos não encontram-se na primeira linha para herdar a coroa, e as filhas eram as infantas. Às filhas do Rei Juan Carlos são chamadas Infanta Cristina e Infanta Helena, e filho como é o primeiro na linha de sucessão é chamado de Princípe de Asturias). A entrada para esta maravilha pouco divulgada custa apenas dois euros, e a visita é guiada. Se você passar ou sair de León não deixe de visitar, é de babar!

Voltamos cedo ao albergue, às nove da noite, as irmãs oferecem uma missa na igreja do convento, é um momento fraternal e emotivo, e como diz o ditado: “Quem está na chuva, é prá se molhar”. Mesmo que você não seja o ser mais crente e devoto, você está no Caminho de Santiago, vivemos na aldeia global, dê uma chance para novas experiências. Permita-se …
fotos do interior da Catedral de León – Manuel Martín Vicente e Jorge Benayas
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Imagens: turomaquia_2006
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Sahagún – Mansilla de las Mulas: 39,04 Km
Foi meio estranho dormir separada do Tom, mas passamos pela provação (hahahaha) e voltamos a caminhar juntos. Acho que algumas vezes foi penoso para o Tom caminhar comigo, ele é sumamente tranquilo, e eu bem, é meio chato dizer, mas estou mais para histérica gritona. Ele tem o mesmo humor sempre. É simplesmente fantástico e reconfortante saber que você vai acordar e olhar para a pessoa e ela estará da mesma maneira que quando te disse: Boa noite! E eu bem … deixemos isso prá lá …

O caso é que ele é um anjo, e eu sou maravilhosa, mas com alguns pequenos probleminhas de fábrica. Os pais costumam dizer que o filho é hiper-ativo, às vezes é verdade, mas na maioria dos casos a criança é meio mimada e ansiosa, bem, vocês já me entenderam … Assim perdoem seus companheiros e companheiras, mas nem todo mundo está perfeitamente ajustado ao nosso mundo!
Este casal super estranho, mas que se dá de maravilha, algumas vezes caminhou com uma “chica” de bico, e o outro rindo, filmando o bico e tentando que a louca voltasse a si. Acho que já melhorei bastante, e meus pais não tem culpa de nada ( eu juro!), e cada dia com a idade avançando sinto que estou mais zen, meus amigos mesmo dizem que nem pareço eu mesma (bem, não sei se isso é um elogio ou …). Mas o caso é que venho desfrutando de cada dia, um pouco como os “AA” (com todo o respeito): “Viver um dia por vez”. Vocês devem estar pensando que estou louca, que estou fazendo neste relato, sei lá, é que estas coisas me estão saindo d´alma, e na verdade o caminho me ajudou ainda mais neste encontro com a felicidade serena, a felicidade que parece que vai acabar, mas nos sorri a cada dia.

Eu tô muito feliz e queria dividir com você e te convidar a realizar este caminho, ou quem sabe de uma vez por toda desvendar o teu próprio caminho sem dizer: “Quando comece o ano, no próximo ano, na segunda-feira …” Tá te parecendo auto-ajuda barata, pois não é nada disso …
Neste dia andamos pela plana Castilla y León, com árvores que davam uma sombra deliciosa (por favor, vamos fazer algo contra o aquecimento global!), comemos coisas maravilhosas e claro, quando chegamos no albergue tivemos que nos contentar com dois colchões em um corredor.

No começo tudo era uma festa, mas o pessoal (como eu já disse) não estão aparentados com santos, e fizeram festa até tarde. Então quando abriam a porta para entrar no edíficio anexo do albergue, o vento cortante entrava nestes vossos peregrinos.
Ao menos esta noite mal dormida me serviu para algo, descobri que não era lenda urbana que haviam peregrinos que saiam mais ou menos às três da manhã. Eu fui testemunha ocular de uma saída exatamente às 03:15 da manhã, UAU! Outra constatação do caminho: Realmente há louco prá tudo!

Mas como dizia um autor que realmente agora neste momento não me lembro quem era, de manhã acordei e o céu continuava em cima da minha cabeça e super azul, assim se serve como consolo, passe o que passe o céu sempre estará aí, ao menos até que nós seres humanos super inteligentes acabemos com o planeta!

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